segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

TRATAMENTO AO ESTRANGEIRO SEGUNDO O ANTIGO TESTAMENTO



“... era estrangeiro, e hospedastes-me...” (JESUS CRISTO)




 As imigrações legais e, principalmente, ilegais tem se tornado o centro das atenções dos países da Europa e de outros países desenvolvidos
 Há quem diga que o mundo vive a maior crise humanitária, o número de deslocados e refugiados já ultrapassam a quantidade de pessoas nessas situações por ocasião da segunda guerra mundial. A estimativa é que hoje existem 60 milhões de pessoas deslocadas violentamente de suas casas por conta de conflitos políticos, étnicos e religiosos. Dessas 60 milhões cerca de 20 milhões tiveram que deixar seu país. Em 2014 a média de pessoas que tiveram que abonar suas casas e viver como estrangeiros foi de quase 42.500 pessoas por dia!
 O estudo que se segue faz parte de uma serie de estudos realizados para discutir a bíblia e a questão da pobreza.  Os estrangeiros que vagueiam sem terra, e por consequência, sem renda, acabam como marginais na  sociedade e sobrevivem em condições de total exclusão.  
  Que a igreja não feche os olhos para essa realidade.

ESTRANGEIROS, QUAL TRATAMENTO SEGUNDO ANTIGO TESTAMENTO.

 Os estrangeiros (gentio, não israelita) não deveriam ser maltratados, nem explorados. Jeová devota-lhes amor e os hebreus, também, deviam amá-los e cuidar desses estrangeiros. (cf. Deuteronômio 10.18,19). O argumento divino para que os hebreus agissem assim era simples: “Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.” (DEUTERONÔMIO 10.19).
 Na lei judaica, presente em Deuteronômio 27.19, se algum judeu oprimisse algum adventício era amaldiçoado pela própria lei divina. A sobrevivência digna para o estrangeiro era assegurada por lei, se não conseguisse sustentar-se não poderia estar reduzido a uma condição de marginalidade social (cf. Levítico 25.35), as colheitas “nos campos, nas vindimas e olivais não poderiam ser de todo colhido após o varejamento, deviam sobrar alguns frutos daquela colheita afim de que os estrangeiros pudessem respigar alguma coisa deixada[1]”, o fato de os lavradores deixarem algumas respiga dava ao estrangeiro a oportunidade de juntar alimentos de uma forma digna e não mendigar.
 A pesquisa textual focada no Pentateuco leva-nos entender outro fator importante: a lei torna iguais, perante ela, estrangeiros e nativos. “Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o SENHOR, vosso Deus” [2]. (cf. Êxodo 14.29; Levítico 24.22; Números 9.15; Números 15.16). A discriminação racial não poderia ocorrer, haja vista a ordenança de Deus em tratar o estrangeiro com respeito e amor. O hebreu foi advertido por Deus para não perverter os direitos dos não hebreus. (cf. Deuteronômio 27.19).
 Outro tratamento interessante é que ao realizar algum empréstimo para o estrangeiro não era permitido a pratica de usura (cf. Levítico 25.35-37), também, este ao trabalhar deveria receber “seu salario antes do pôr-do-sol [3].
 Jó[4], enquanto questionava Deus, mostra claramente como um cidadão exemplar, também cuidava dos estrangeiros: “nunca deixei um estrangeiro dormir na rua; os viajantes sempre se hospedaram na minha casa.” (Jó 31.32)
 Há alguns exemplos de estrangeiros que tiveram êxito no antigo testamento, a ex-prostituta de Canaã Raabe (Josué 2) , o soldado hitita Urias (1Samuel 11), Rute a moça moabita ( Rute 1-4), Ornã o jebuseu (1 Crônicas 20), entre outros, deixando claro que os imigrantes, não formam esquecidos por Deus e nem pela lei.
  Nos Salmo 94.1-10 contidos no antigo testamento os autores em alguns casos clamam por justiça, destacamos um trecho a seguir:
         Ó SENHOR Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente! Exalta-te, tu, que és juiz da terra; dá o pago aos soberbos. Até quando os ímpios, SENHOR, até quando os ímpios saltarão de prazer?  Até quando proferirão e dirão coisas duras e se gloriarão todos os que praticam a iniquidade?  Reduzem a pedaços o teu povo, SENHOR, e afligem a tua herança.  Matam a viúva e o estrangeiro e ao órfão tiram a vida. E dizem: O SENHOR não o verá; nem para isso atentará o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? E o que formou o olho, não verá? Aquele que argui as nações, não castigará? E o que dá ao homem o conhecimento, não saberá? (ARC, GRIFO NOSSO)
 Os livros dos profetas também tratam de questões ligadas aos estrangeiros ora denunciando os hebreus de não cumprirem a lei divina, extorquindo e colocando os adventícios numa condição social lastimável, ora dando-lhes esperança mostrando que o Deus de Israel não se esqueceria dos estrangeiros.
 O profeta Isaías, por exemplo, fala que o estrangeiro não seria discriminado (cf. Isaías 56.3,6). Jeremias fala que uma das condições para se cumprir uma promessa para os hebreus, estes deviam cuidar dos estrangeiros (cf. Jeremias 7.1-7), e, ainda em Jeremias, os hebreus são convocados a executar o direito e a justiça, “... não oprimindo o estrangeiro...” (Jeremias 22.3). O profeta Zacarias e o profeta Malaquias, também, clamam contra a opressão imposta a estrangeiros (cf. Zacarias 7.10; Malaquias 3.5).
  O entendimento formado a partir do antigo testamento no que tange ao estrangeiro, no mínimo deve ser o de respeito, direito a uma vida digna, emprego não exploratório e que não haja discriminação para os adventícios existentes.    O cristianismo que adota o antigo testamento com escritura divinamente inspirada deve estar de olhos abertos e braço estendido para aqueles que procuram refugio.
Parnaíba 14 de outubro de 2015



[1] Pesquisa realizada no texto “Amara ao estrangeiro” de Nicolleta Crostti, p.7
[2] Levítico 19.34
[3] Texto de Deuteronômio 24.15 ARA.
[4] Personagem do livro veterotestamentário que leva o mesmo nome, onde narra a trágica história de um homem que sofre com o mal, mais por fim tem o seu sofrimento transformado em bem-aventuranças. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O perigo em ser bom. A bondade e o ser




Em algum momento da vida você pode ter se perguntado: Porque ser bom?Por que ser bom filho? Bom esposo? Boa esposa? Um bom profissional? Um bom cristão?
Sem dúvida muitas respostas surgem a esse questionamento: “Devemos ser bons porque agindo assim receberemos bondade em troca”. Ou: “Devemos fazer isso porque aquilo que plantamos colhemos. É o que se espera das pessoas”.  “Se você não for uma pessoa bondosa o que pensarão a respeito de você?”
Kant responde dizendo que devemos ser “bons com os outros” simplesmente porque isso é que está certo. Todas essas respostas me levam a outro questionamento: Qual a motivação de minha bondade?
Parece-me que todas as afirmações acima tendem a fracassar quando pensamos a respeito. Vejamos por exemplo Jesus que curou pessoas, perdoou pecados, ensinou a muitos, clamou por justiça, e o que ele colheu?
E os seus discípulos? E os cristãos do primeiro século? E Martin Luther King? E os judeus durante a segunda guerra mundial? Enfim, me parece não muito convincente as afirmações de ser bom por motivações de “uma boa colheita”.  Ser bom pelo apelo social também não é a motivação correta.
Ser é algo que existe, no grego eimi (primeira pessoa do indicativo ativo do presente). Somos no presente, enquanto existimos, no movimento que chamamos de agora.  Nesse sentido não se pode negar aquilo que se é, podemos enganar os outros com as diversas mascaras sociais que usamos. Mas não podemos negar aquilo que somos.
O primeiro filósofo a colocar explicitamente o conceito de SER foi Parmênides de Eleia (século VI a.C. - século V a.C.). Para ele, seria impossível falar ou pensar no Não-Ser, pois o Não-Ser nada refere. Para o pensador de Eleia, O Ser, que existe para além das ilusões do mundo sensível da doxa, é uno, eterno, imóvel, não-gerado e imutável: "O Ser é e o não ser não é".[1]
Nesse sentido ser bom, por esperar algo, ou para receber gloria, louros da fama, já não é ser bom.  Alguém deve agir com bondade, por que ele é bom, a motivação é aquilo que a pessoa é. Ser é ser. Ser bom para receber bondade é ser interesseiro, negociador, barganhador. Pensar em ter vantagens por algumas atitudes louváveis não demostra o que somos na verdade, por que na verdade somos o que somos.
Ser bom para obter reconhecimento ou não ser julgado, não é ser bom. Talvez a busca por inflar seu ego, um pouco de narcisismo, ou a síndrome do “espelho espelho meu” retratada nos contos dos irmãos Grimm. Leon Tolstoi já dizia: “Não é possível ser bom pela metade”.
Na verdade sempre queremos ganhar, crescer, ser visto, ser reconhecido, não ser julgado.  A nossa natureza clama por isso.  Por isso cultivar uma bondade desprovida do real sentido do ser, é inútil, é perigoso, pelo menos para os cristãos.  
Jesus praticava a bondade, pois essa era sua natureza, Ele era, Ele é, e sempre será.
Nós devemos agir com bondade pela nova natureza que recebemos. (João 3.3) Essa nova natureza nos impele a produzirmos frutos, é um deles é a bondade (Gálatas 5.22). A nossa motivação não pode ser mesquinha, interesseira, infantil ou covarde. Mas pelo Espirito que comunica ao nosso ser interior uma nova vida, um novo caráter, um novo ser, agora motivados pelo somos. (2 Coríntios 3.18).  Libertos e despidos do velho homem (Colossenses 3.9; Efésios 4.2). Esse novo ser é real. Ele age, porque agora é.  
Ser bom pode nos custar a vida. Maquiavel ensina que ser bom em meio a tantos outros que são maus é uma desvantagem.  Contrapondo Maquiavel, Jesus afirma que felizes são aqueles que são; bondosos, misericordiosos, mansos, perseguidos. (Mateus 5).  Não se pode negar aquilo que se é. Mesmo estando em desvantagem aqueles que nasceram de novo, mesmo correndo o risco de açoites, de desprezo, de “sair perdendo”, de morte, não deixaram de ser aquilo que são.



   “...pois que já vos despistes do homem velho com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou...” (Colossenses 3.9-10)



Oaidson Bezerra e Silva










[1] Disponivel em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ser .  Acesso em 23/01/2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Panorama do Antigo Testamento





Acesso aos slides da aula, apostila e material de pesquisa para aprofundamento do tema.Esteja a vontade para compartilhar o material.
Lembrando que apostila da aula é apenas um guia para os assuntos abordados pelo professor em sala.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

HINDUÍSMO E OS EVANGÉLICOS BRASILEIROS.


  Vivemos numa sociedade injusta.
  Basta olhar ao redor que logo se percebe um modelo de sociedade onde se concentram muito nas mãos de poucos e quase nada nas mãos da maioria.  O sistema imposto parece não incomodar o ser humano, dificilmente as dissonâncias sociais existentes e suas consequências criam, de forma eficaz, um impulso para a luta por mudanças.
  Em Mumbai, Índia, um dos homens mais ricos do mundo esta construindo a casa mais cara do mundo avaliada em quase dois bilhões, construída para seis pessoas a casa possuirá vinte e sete andares, nove elevadores, mais de seiscentos funcionários e heliporto para três helicópteros. O que chama a atenção é que a casa esta sendo construída onde havia um orfanato publico e no bairro mais pobre de Mumbai (cerca de 60% da população é extremamente pobre)[1].
                O fato acima citado mostra o quão inerte e passivo o ser humano fica diante das disparidades existentes. Mas enquanto aos cristãos, será que agimos e vivemos da mesma forma? Conseguimos de fato ter algum tipo de sentimento com o sofrimento causado pelo sistema social que estamos inseridos?
                O cristianismo é diferente do hinduísmo onde o sistema de casta é aceito com naturalidade e a explicação para as diferenças sociais consiste puramente em determinismo e aceitação da casta onde se está inserido. Mas alguns cristãos agem como hindus simplesmente ignoram a situação alheia, como se aquilo fosse sorte predeterminada pela divindade cristã.
                A preocupação e o amor com o próximo ensinado por Jesus parecem ser ignorados. No evangelho escrito por Lucas (CAP 10.29-37) Jesus fala com um interprete da lei judaica. O intuito daquele doutor era testar Jesus, ele pergunta como herdar a vida eterna ao que é respondido “ Que está escrito na lei? Como lês?  E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo. E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverás.”
                Aquele doutor pergunta quem é o seu próximo, Jesus então conta uma estória: “Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E, de igual modo, também um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão. E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele; 35  E, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar”.
                Jesus conclui com um questionamento: “quem destes três parece o próximo daquele que sofreu o infortúnio?”.
                A grande questão é quem é o “próximo” para aqueles que se dizem cristãos? E por que aceitamos as consequências do sistema social com tanta passividade? O menor abandonado, o mendigo, as prostitutas, os dependentes químicos, a pobreza, os abusos, parecem não incomodar?
                Enquanto não encararmos o ser humano em sua plenitude (corpo, alma e espirito) como nosso próximo e fazer como Jesus ensinou jamais poderemos nos denominar cristãos.