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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Aos Teólogos,





Aos teólogos,

Tive o prazer de ministrar para uma turma de formandos em Teologia nesse último fim de semana. Minhas palavras formam o que julgo uma pequena parte do desafio para os teólogos de hoje.
Quero compartilhar com você. Espero que você também se sinta desafiado.

DESAFIOS

UMA FÉ COMPROMETIDA COM A REALIDADE.
SOBRIEDADE EM  TEMPOS DE DEVANEIOS.
FIRMEZA EM TEMPOS DE FLUIDEZ.
VOCAÇÃO EM TEMPOS DE ATIVISMO RELIGIO-MINISTERIAL.
DESAFIO DE VIVER O QUE ENSINA E ENSINAR O QUE SE VIVE.


      UMA FÉ COMPROMETIDA COM A REALIDADE

Não raro somos tentados a viver uma fé sem compromisso com a ética cristã, e sem compromisso com a realidade.
Em tempos de grandes palácios erigidos em nome da fé, em tempos de descompromisso com a realidade do nosso tempo, tempos em que a religiosidade é um meio de escape, eu ouso em CONCLAMA-LOS, olhem para o mundo, não com o desprezo costumaz de um enclausurado, mas olhem com o olhar de João 3.16.
Tenha uma fé que não fique somente no transcendente, que seja imanente, uma fé que abrace as ruas, uma fé que abrace a realidade do ser humano DE HOJE, logicamente sem abrir mão do que lhe é mais precioso, A REVELAÇÃO DA DIVINDADE EM CRISTO E SUA PALAVRA.
Como bem falou Tiago: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (TG 2.17), sigamos com uma fé viva. Ouçamos o apostolo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”.
Lembro-me das palavras de Freire:
“O radical, comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em ‘círculos de segurança’, nos quais aprisione também a realidade.”
Tenham a coragem de abrir mão da vida guiada pela religião aparente. Abrir mão do pensamento preso a Teologia de sua comunidade de fé. Por mais que seja o mais fácil, mais ‘seguro’, tenha a coragem e ousadia de peitar a realidade de frente e questionar como nossa fé pode mudá-la.

Não carregue simplesmente a Teologia de uma denominação, de uma igreja, mas uma teologia que seja dialogal, que converse com o mundo, com as pessoas, com as ciências, com o profissional, com a ética, com a vida, com a politica, com a sociedade. Contudo não abra mão da fé, da palavra e do Deus encarnado do novo testamento.


SOBRIEDADE EM TEMPOS EM TEMPOS DE DESVANEIOS

Em tempos de religião como moda, em tempos de triunfalismo, de muita falação, grandes eventos, da fé como show business, de teologias formatadas, de teologias intocáveis e distorcidas, de discursos que subjugam o divino, discursos que vão contra a revelação escrita e a própria historia da fé cristã. Eu conclamo os teólogos de hoje à sobriedade:

Sede sóbrios, (eknephos, voltar a ter uma mente sóbria, ou sophron mente sã).
Lembro do conselho de Pedro:
Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo.” (1 PEDRO 1.13)
O desafio é ter:
Sobriedade ante os vícios da religião.
Sobriedade ante a ilusão do poder.
Sobriedade ante ao delírio da riqueza.
Sobriedade ante a embriaguez dos elogios e do reconhecimento puramente humano.
Sejam sóbrios em tempos de desvaneios. Tenham o mesmo espirito dos profetas de Israel, quando clamavam ante a 'loucura' do povo que se afastavam do Deus verdadeiro.


 FIRMEZA EM TEMPOS DE LIQUIDEZ E FLUIDEZ

Bauman, sociólogo, parece ter acertado em cheio a definição da pós-modernidade. Estamos nos tempos líquidos, relações liquidas, nada precisa ser rígido ou tão sólido, mas fluído e em permanente inconstância.
Zygman Bauman escolhe o “líquido” como metáfora para ilustrar o estado dessas mudanças, facilmente adaptáveis e fáceis de serem moldadas. As formas de vida moderna, segundo ele, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça esse estado temporário das relações sociais.
A transitoriedade é a marca do nosso tempo, tudo é móvel, não fixo. Mas quero lembrar-lhes que o teólogo tem a dura tarefa de não amoldar-se, não seguir o mesmo fluxo. O teólogo segue um padrão absoluto, insolúvel, rijo, firme.
Quero lembrar-lhes que a Rocha viva é inabalável, que o Deus trino não muda (MALAQUIAS 3.6), e seus padrões também não. Sua palavra não muda e não mudará (MATEUS 24.35). O conceito bíblico de pecado não é transitório. O amor de Deus também não é passageiro. Os planos do altíssimo não foram mudados.
O PADRÃO NÃO É RELATIVO, A VIDA CRISTÃ TAMBÉM NÃO.
O conselho de Paulo é “Portanto, meus amados irmãos, permanecei firmes e que absolutamente nada vos abale.” (1 CO 15.58)

“A ausência de firmeza explica o abandono da fé, o abandono da esperança, o abandono do entusiasmo e o abandono do compromisso evangélico da parte de não poucos cristãos, depois de um razoável período de fidelidade a Cristo. É como cantamos: “Quantos que corriam bem/ De ti longe agora vão!/ Outros seguem, mas também/ Sem calor vivendo estão”. Sem firmeza a fé não consegue desafiar o tempo. O tempo é a maior prova da autenticidade e da firmeza da fé. Jesus menciona este fato na parábola do semeador. O que aceita a Palavra com alegria mas não se preocupa com o crescimento da raiz terá fé de pequena duração: “Quando surge alguma tribulação ou perseguição por causa da Palavra, logo a abandona” (Mt 13.21).”[1]


   VOCAÇÃO EM TEMPOS DE ATIVISMO RELIGIO-MINISTERIAL


Paulo, enquanto estava preso em Roma, faz uma das mais lindas convocações:
  Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados
Não troque sua vocação pelo ativismo religioso, ou pelo desejo de poder interno, ou pelo desejo de cargos e mais cargos.
Antes faça, com que sua vocação seja priorizada. Afinal vocês se encaixam no que Paulo diz em Efésios 4.12, vocês são mestres, pastores, doutores, pessoas vocacionadas para edificação da igreja. Por isso esse desejo de fazer um curso que não te recompensará financeiramente apenas.
Estejam preocupados com a vida devocional de vocês.


DESAFIO DE VIVER O QUE SE ENSINA E  ENSINAR O QUE SE VIVE


Ter coerência entre o dito e o feito.
“Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não perguntar o que se ignora.” (São Beda)

Tiago disse:
E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. (TIAGO 2.17)

Pedro asseverou:
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos (1 PEDRO 2.15)

Por ultimo concluo com a oração de Tomas de Aquino, que intercedeu  assim pelos Teólogos:

Deus santíssimo, Deus Pai,
nós, teu povo e teus herdeiros,
te pedimos pelos teólogos.
Tu que te revelaste a nós pela Palavra de vida,
não permitas que não entendamos as palavras
dos teólogos na nossa vida.
Tu que te revelaste a nós pela encarnação de Jesus,
não permitas que eles falem de uma teologia
que não seja encarnada e sempre reveladora.
Deus santíssimo, Deus Pai,
Tu que és eterna luz e única verdade,
ilumina e esclarece o espírito dos teólogos,
que seus estudos sejam fruto do Espírito Santo,
de oração e de humildade,
fonte de esclarecimento para teu povo.
Que Tu não sejas para ninguém, sobre esta terra,
apenas um objeto de estudo, mas
a rocha segura sobre a qual podemos construir nossa casa.

Deus abençoe a jornada de vocês, e se me permitem mais um conselho: produzam uma teologia relevante!

Soli Deo gloria!!!!!

Oaidson Bezerra e Silva
29 de Maio de 2017

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ser cristão




Sou cristão.
Cristãos são aqueles que tentam de todas as formas serem como Cristo.
E é lógico, faço parte de uma comunidade religiosa, isso porque anseio encontrar pessoas que tenham a mesma vontade que a minha, ser como Cristo.
E como é comum encontrar pessoas com desejos diferentes. Assim como Cristo que encontrou Judas que queria dinheiro, e libertação dos romanos, ou como o zangado do Pedro, ou como João e seu irmão que queria posição, proeminência. Pessoas que cospem no rosto, pessoas sem misericórdia, sem amor, sem fé. Ou como os que queriam ver o "show" dos milagres. É duro, mas as comunidades religiosas estão cheias de pessoas assim. 

Mas Jesus também encontrou pecadores que batiam no pecado e clamavam, tem misericórdia de mim. uma viúva que doou tudo quanto possuía. Uma mulher que largou tudo que estava fazendo para se sentar aos seus pés e ouvi-lo. Pessoas que precisavam simplesmente ser curados, mas que voltaram humildemente para agradeço - Lo. Viu amigos que ajudaram um paralítico a chegar perto dELe. 
Ele acompanhou pessoas serem transformadas, curadas, tocadas, libertas. E sim amigo nossas comunidades tem pessoas assim. 
Pode parecer muita pretensão a minha, mas quero ser como essas últimas. Pequenas, humildes, reconhecendo a graça de Deus , seu amor. 
Talvez essa graça maravilhosa me tocou de uma forma que não possa voltar mais a ser o que eu era. 
Reconheço que ainda falta muito para ser como ele é, mas aquele que começou a boa obra em nós é fiel para completá-la, por que um dia haveremos de ser como ele é. 
Não me entenda mal, não queremos de forma alguma sermos superiores, ao contrário Cristo nos ensinou que devemos ser os menores, servindo a todos.


Fraterno abraço
Oaidson Bezerra e Silva

terça-feira, 2 de maio de 2017

Para guardar o seu coração na Universidade



Por André Filipe
Querido(a) irmã(o) universitário(a), Eu gostaria de compartilhar com você alguns conselhos que tiramos de nossa experiência na Universidade, mas também dos anos acompanhando universitários que, como você, amam Jesus Cristo e desejam guardar firme o coração.
1. Guarde seu corpo: da imoralidade e das drogas
O tempo na Universidade apresentará oportunidades de autodestruição que, a princípio, parecerão muito mais atrativas que em outras fases da vida. Uma destas é a imoralidade. Determinadas festas e amizades farão um grande convite para tornar a sua sexualidade descartável. Já acompanhei cristãos com as mais extravagantes experiências sexuais, mas vazios e arrependidos pelo que fizeram do próprio corpo.
Uma outra forma de autodestruição são as drogas, legalizadas ou não. Uma das cenas mais tristes que vejo semestralmente próximas aos bares das Universidades são jovens inconscientes por beberam demais. Infelizmente, já vi jovens chegarem à Universidade sem terem sequer experimentado cerveja, mas após 3 ou 4 anos, não concluem seu curso por causa da dependência química e das dívidas por causa delas.
Muitas vezes, o que leva estes jovens a se entregarem tão facilmente é a tola ingenuidade de que o que o mundo tem a oferecer é melhor do que a Graça de Cristo. O livro de Provérbios nos traz algumas advertências sobre este comportamento ingênuo, mostrando que “a falsa segurança dos tolos os destruirá” (Pv.1.32), que “comerão do fruto da sua conduta e se fartarão de suas próprias maquinações” (Pv.1.31). Mas conclui com esperança: “quem me ouvir (a sabedoria de Deus) viverá em segurança” (Pv.1.33).
Lembre-se que seu corpo, além de ser moradia do Espírito Santo (1 Co 6.19), é também o jardim guardado para o desfrute dentro no casamento (Ct 4.12).
2. Guarde sua mente: do abandono da fé ou da irrelevância da fé
Outro grande desafio na Universidade não vem das amizades nem do estilo de vida, mas de professores que, do alto de sua arrogância, zombam dos mais de 2.000 anos de pensamento cristão. Não são poucos os casos de professores e disciplinas que afrontam o cristianismo declaradamente. Essas pessoas podem levá-lo a crises de fé e até mesmo ao abandono da fé.
A crise de fé não é necessariamente ruim, e até pode ser muito produtiva, pois pode tirá-lo de uma religiosidade para levá-lo à convicção da fé. No entanto, podemos ser facilmente enredados pelo carisma de professores escarnecedores. Cuidado! Guarde sua mente se lembrando do que disse João: “…nenhuma mentira procede da verdade. Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? (…) Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai. E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna. Escrevo-lhes estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar” (1Jo.2.21-26). Estas verdades alimentaram a mente de grandes pensadores do mundo, dos quais todos somos devedores! Não se envergonhe do Evangelho!
No entanto, há um perigo contrário, o da irrelevância da fé para seus estudos. É o perigo de você relegar seus pensamentos religiosos para os finais de semana e aceitar tudo o que colocam em sua mente sem autocrítica durante a semana. Lembre-se que “os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Sl.19.1) e, portanto, não há nenhuma sabedoria neste mundo à parte da sabedoria de Deus e que “as palavras dos sábios são (…) como pregos bem fixados provenientes do único Pastor. Cuidado, meu filho; nada acrescente a eles. Não há limites para a produção de livros, e estudar demais deixa exausto o corpo. Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é essencial para o homem” (Pv.12.11-13).
3. Guarde sua carreira: do ativismo ou do paternalismo.
Além destes dois perigos iniciais, há ainda o perigo de você perder o foco para o qual você está na Universidade e destruir sua carreira. Há muita coisa com a qual você poderá se envolver na universidade, como esportes, teatro, política e até mesmo em ministérios de evangelização na Universidade, como ABU etc. Essas coisas são maravilhosas. Aproveite o máximo que puder. No entanto, não se esqueça que você está na faculdade para se preparar para um carreira pela qual você glorificará a Deus!
Não se iluda com o fato de ter entrado numa boa faculdade e que isso garante um futuro promissor. Você pode descobrir tarde demais que isso é uma mentira. Você terá que “ralar” como todo mundo! Por isso, alivie no ativismo próprio da juventude e invista em sua carreira para a glória de Deus! Aproveite para estagiar nos anos de faculdade, pois você pode correr o risco de concluir o curso desempregado e sem nenhuma experiência!
Um segundo perigo a este respeito é para aqueles que, morando longe dos pais, mas sendo sustentados por eles, se acostumam com este conforto e buscam prolongá-lo o mais possível, postergando a independência financeira para continuar uma vida de ociosidade. Lembre-se da advertência de Paulo: “esforcem-se para (…) trabalhar com as próprias mãos (…) a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém” (1 Ts 4.11-12). Deus, em sua graça comum, ajuda “quem cedo madruga” independente se você é um cristão ou não. Se você for um cristão preguiçoso, você passará fome!
Um parêntese é preciso ser feito. É possível que, no período de faculdade, seu coração esteja voltado quase que irremediavelmente para ministérios de evangelização e serviço à igreja. Avalie corajosamente o próprio coração. É possível que você esteja fazendo a faculdade apenas por uma pressão social ou paterna, mas que sua vocação seja mesmo a de pastor, ou missionário ou outra atividade ministerial. Isso é muito comum. O conselho que eu dou é para que, o quanto antes, resolva sua identidade vocacional e abrace com coragem aquilo para o que o Senhor o tem chamado!
4. Guarde sua comunhão: da solidão, do abandono da igreja e do bom uso de seus dons espirituais
Este último tópico diz respeito a um perigo contrário ao anterior. É possível que você fique tão absorvido pelos estudos e pelo trabalho, que você se isole do mundo completamente. Você que vem de uma cidade interiorana para uma metropolitana descobrirá que há algo mais terrível que as provas finais: os finais de semana solitários na metrópole. A solidão pode ser agonizante e tão insuportável na cidade grande que tenho visto tristemente muitos estudantes se entregando à depressão e ao suicídio.
Um outro erro daqueles que vem de outra cidade é nunca cortar o cordão umbilical. Você não vai gostar do que vou lhe falar agora: existe uma grande probabilidade de você nunca mais voltar à sua cidade de origem, e nem àquela igreja que você cresceu e fez tantos amigos. E, mesmo se você voltar, nada mais será como antes. Você perceberá que você também não será mais o mesmo que saiu. Quero encorajá-lo a, pouco a pouco, se desligar de sua igreja de origem e engajar-se numa igreja da cidade onde você está. Faça amizades na igreja, sirva à igreja, use os dons que Deus lhe deu na igreja da sua nova cidade. E não apenas isso. Lembre-se de ser um instrumento de Deus na própria universidade. Eu tenho me surpreendido com o número de jovens na Universidade que são totalmente ignorantes da fé cristã, e talvez a sua presença dentro da sala de aula nestes quatro anos seja a única chance que aquela pessoa terá para conhecer a Cristo. Não perca esta oportunidade!
Além do mais, abrevie as idas à sua antiga casa e experimente mais a cidade em que você está morando. O que tenho visto a este respeito são estudantes que passam todo o seu período de faculdade divididos, mas quando terminam a faculdade, os seus antigos amigos deram rumo à vida, e você não fez nenhuma grande amizade na cidade em que está.
Abra seu coração para uma nova igreja e para boas amizades cristãs. Mesmo que você tenha vivido um tempo especial na sua cidade anterior, nesta nova cidade Deus pode estar preparando a melhor fase da sua vida, como foi para mim. No período de faculdade eu vivi meus melhores tempos com Deus, desenvolvi minhas melhores amizades e encontrei a mulher com quem me casei.
E é isso o que desejo a você neste período que passa muito rápido, mas que deixará marcas profundas em você como nenhuma outra fase da vida, seja se você a levou de forma insensata, abandonando ao seu Deus, ou se você levou com sabedoria, no Temor do Senhor.
Que o temor do Senhor o acompanhe por todos os seus dias de universitário!


— André Filipe, casado com Sara, é bacharel em letras e seminarista presbiteriano. Colabora na plantação de igreja numa aldeia indígena em São Paulo.

EMPRÉSTIMOS NO ANTIGO TESTAMENTO

  
            Grosso modo e resumindo podemos afirmar que empréstimos fazem parte da sociedade como costumes muito antigos e que é difícil datar com precisão o inicio desse costume.
            Analisando os cinco primeiros livros da bíblia pode-se aprender muito sobre a economia de um povo em desenvolvimento. Na civilização hebreia que estava se formando, “os empréstimos eram essenciais para permitir que as pessoas saíssem da pobreza” [1], além de ser parte da responsabilidade social daquele povo. Os empréstimos serviam para que alguns hebreus investissem em um pequeno negócio, por mais atual que isso pareça, para suprirem suas necessidades e se tornarem autossustentáveis.
            No vernáculo hebraico existem cinco palavras para indicar o termo empréstimo, nashah (“hvn”) que significa emprestar, ser credor, lavah (“hwltomar emprestado, nathan (“Ntn”) dar, abat (“jbe”),  tomar como penhor ou dar como penhor e sha’al ou sha’el (“lav”) pedir emprestado.
            A pratica dos empréstimos era regulamentado pela lei mosaica e visava à ajuda aos pobres, vejamos o que um trecho bíblico diz:
Porque o SENHOR, teu Deus, te abençoará, como te tem dito; assim, emprestarás a muitas nações, mas não tomarás empréstimos; e dominarás sobre muitas nações, mas elas não dominarão sobre ti. Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na tua terra que o SENHOR, teu Deus, te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre; antes, lhe abrirás de todo a tua mão e livremente lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade. Guarda-te que não haja palavra de Belial no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão, e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e que ele clame contra ti ao SENHOR, e que haja em ti pecado. Livremente lhe darás, e que o teu coração não seja maligno, quando lhe deres; pois por esta causa te abençoará o SENHOR, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo no que puseres a tua mão. Pois nunca cessará o pobre do meio da terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado e para o teu pobre na tua terra. (DEUTERONÔMIO 15.6-11) [2]
            No caso de empréstimos a lei proibia a pratica de usura (cobrança de juros) com os seus compatriotas e só era aceitável a cobrança de juros quando os empréstimos eram feito a não hebreus (cf. Deuteronômio 15.6; 23.19-20).
            O Pentateuco mostra um ciclo onde as dividas eram perdoadas. A cada sete anos o devedor tinha suas dividas anuladas por seus credores. Mas não se pode pensar que os hebreus se aproveitavam dessa lei, enganando seus credores, haja vista que aquele que não devolvessem os empréstimos tomados era considerado ímpio (cf. Salmo 37.21), e os que ultrapassam esse ciclo não conseguindo sanar suas dividas, assim agiam por pura falta de condições (cf. Deuteronômio 24.10-17; 15.1-6).
            Encontramos nos Salmos declarações de retribuições aos que tinham como pratica o emprestar como ajuda aos pobres, dando condições a estes de minimizarem sua condição social e saírem da pobreza, veja exemplo a seguir: “O que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.” (Salmos 15.5) e “ditoso o homem que se compadece e empresta; ele defenderá a sua causa em juízo”. (Salmos 112.5). Ainda nos livros conhecidos como sapienciais encontramos o apoio dessas praticas visando o bem social (cf. Salmos 37.26; Provérbios 19.17).
            O estudo bíblico cuidadoso do tema aqui esboçado leva-nos a compreender que a pratica do empréstimo de bens poderia ajudar os pobres, dando-lhes condições de criarem um meio de renda que os ajudassem. Mas, como comentado em alguns tópicos anteriores, e historicamente falando, existiram hebreus que praticavam justamente o contrario do sistema de leis imposto por Deus no antigo testamento o que acabava criando problemas sociais sérios, e em relação a empréstimos não foi diferente.





[1] COPE, Landa, The Old Testament Template - Rediscovering God's Principles for Discipling  2°Ed. , The Template Instituto Press, Burtigny, Suíça.May  2008, Pg. 39 Cap. 2.
[2] Bíblia Sagrada versão Almeida Revista e Corrigida.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O perigo em ser bom. A bondade e o ser




Em algum momento da vida você pode ter se perguntado: Porque ser bom?Por que ser bom filho? Bom esposo? Boa esposa? Um bom profissional? Um bom cristão?
Sem dúvida muitas respostas surgem a esse questionamento: “Devemos ser bons porque agindo assim receberemos bondade em troca”. Ou: “Devemos fazer isso porque aquilo que plantamos colhemos. É o que se espera das pessoas”.  “Se você não for uma pessoa bondosa o que pensarão a respeito de você?”
Kant responde dizendo que devemos ser “bons com os outros” simplesmente porque isso é que está certo. Todas essas respostas me levam a outro questionamento: Qual a motivação de minha bondade?
Parece-me que todas as afirmações acima tendem a fracassar quando pensamos a respeito. Vejamos por exemplo Jesus que curou pessoas, perdoou pecados, ensinou a muitos, clamou por justiça, e o que ele colheu?
E os seus discípulos? E os cristãos do primeiro século? E Martin Luther King? E os judeus durante a segunda guerra mundial? Enfim, me parece não muito convincente as afirmações de ser bom por motivações de “uma boa colheita”.  Ser bom pelo apelo social também não é a motivação correta.
Ser é algo que existe, no grego eimi (primeira pessoa do indicativo ativo do presente). Somos no presente, enquanto existimos, no movimento que chamamos de agora.  Nesse sentido não se pode negar aquilo que se é, podemos enganar os outros com as diversas mascaras sociais que usamos. Mas não podemos negar aquilo que somos.
O primeiro filósofo a colocar explicitamente o conceito de SER foi Parmênides de Eleia (século VI a.C. - século V a.C.). Para ele, seria impossível falar ou pensar no Não-Ser, pois o Não-Ser nada refere. Para o pensador de Eleia, O Ser, que existe para além das ilusões do mundo sensível da doxa, é uno, eterno, imóvel, não-gerado e imutável: "O Ser é e o não ser não é".[1]
Nesse sentido ser bom, por esperar algo, ou para receber gloria, louros da fama, já não é ser bom.  Alguém deve agir com bondade, por que ele é bom, a motivação é aquilo que a pessoa é. Ser é ser. Ser bom para receber bondade é ser interesseiro, negociador, barganhador. Pensar em ter vantagens por algumas atitudes louváveis não demostra o que somos na verdade, por que na verdade somos o que somos.
Ser bom para obter reconhecimento ou não ser julgado, não é ser bom. Talvez a busca por inflar seu ego, um pouco de narcisismo, ou a síndrome do “espelho espelho meu” retratada nos contos dos irmãos Grimm. Leon Tolstoi já dizia: “Não é possível ser bom pela metade”.
Na verdade sempre queremos ganhar, crescer, ser visto, ser reconhecido, não ser julgado.  A nossa natureza clama por isso.  Por isso cultivar uma bondade desprovida do real sentido do ser, é inútil, é perigoso, pelo menos para os cristãos.  
Jesus praticava a bondade, pois essa era sua natureza, Ele era, Ele é, e sempre será.
Nós devemos agir com bondade pela nova natureza que recebemos. (João 3.3) Essa nova natureza nos impele a produzirmos frutos, é um deles é a bondade (Gálatas 5.22). A nossa motivação não pode ser mesquinha, interesseira, infantil ou covarde. Mas pelo Espirito que comunica ao nosso ser interior uma nova vida, um novo caráter, um novo ser, agora motivados pelo somos. (2 Coríntios 3.18).  Libertos e despidos do velho homem (Colossenses 3.9; Efésios 4.2). Esse novo ser é real. Ele age, porque agora é.  
Ser bom pode nos custar a vida. Maquiavel ensina que ser bom em meio a tantos outros que são maus é uma desvantagem.  Contrapondo Maquiavel, Jesus afirma que felizes são aqueles que são; bondosos, misericordiosos, mansos, perseguidos. (Mateus 5).  Não se pode negar aquilo que se é. Mesmo estando em desvantagem aqueles que nasceram de novo, mesmo correndo o risco de açoites, de desprezo, de “sair perdendo”, de morte, não deixaram de ser aquilo que são.



   “...pois que já vos despistes do homem velho com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou...” (Colossenses 3.9-10)



Oaidson Bezerra e Silva










[1] Disponivel em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ser .  Acesso em 23/01/2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Panorama do Antigo Testamento





Acesso aos slides da aula, apostila e material de pesquisa para aprofundamento do tema.Esteja a vontade para compartilhar o material.
Lembrando que apostila da aula é apenas um guia para os assuntos abordados pelo professor em sala.



sábado, 31 de dezembro de 2016

A POBREZA E A BÍBLIA - ANTIGO TESTAMENTO


          

"Aquele que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, também clamará, e não será ouvido.”  Provérbios  
            

A pobreza e a sua definição é complexa. Descrever a pobreza numa ótica bíblica não é uma tarefa fácil para o teólogo cristão protestante do presente século, afinal estamos em uma era de certezas teológicas rasas onde a maioria dos cristãos apregoa sobre uma vida abundante na terra. A cosmovisão de muitos protestantes hoje, alicerçada na teologia da prosperidade[1], aliada ao capitalismo selvagem e ao egocentrismo humano torna a questão desinteressante para alguns, afinal o capitalismo, de acordo com o pensamento de muitos, torna livre o homem, para que este alcance classes sociais mais altas, e o fato de alguns serem pobres se deve ao fato de não se esforçarem o suficiente para saírem de suas condições sociais.
Além da visão hodierna distorcida de alguns denominados protestantes, temos a questão teológica do termo pobreza em si, que pode ser entendido de diversas maneiras, como Barth (1986) assevera, pessoas socialmente privilegiadas podem ser pobres: na saúde, intelectualmente, espiritualmente e nos seus relacionamentos, em contrapartida uma pessoa pobre no sentido financeiro pode ser rica nesses outros sentidos[2].
Mas afinal quem são os pobres de acordo com a bíblia, haja vista a tendência de alegorizar a interpretação da palavra pobre. O sentido bíblico não deve ser entendido somente numa conotação socioeconômica, pois o pobre, biblicamente falando pode ser uma disposição interior ou atitude da alma[3] (cf. MATEUS 5.3 ARC), porém a interpretação do termo pobre não deve ser limitada a esse tipo de entendimento, pois, a pobreza socioeconômica é uma cruel realidade que não podemos fingir que não exista.
Em pesquisa aos vocábulos ligados à palavra pobre e pobreza percebemos que a bíblia fala mais sobre o assunto em questão do que outras doutrinas tão enfatizadas e ensinadas nas igrejas protestantes hodiernas. São quase cento e setenta citações diretas dos vocábulos estudados nesse item. A igreja precisa se preocupar com a essa questão, afinal Deus se preocupa, pelo menos, é o que fica subentendido pelas pesquisas dos trechos bíblicos.
 O termo no hebraico mostra as seguintes definições: aniy (yne) usada mais de trinta vezes com sentido de homem rebaixado e aflito, tem o sentido de pobreza como consequência de opressão politica, religiosa e psicológica esse termo aparece em Isaías 3.14, ebyown (Nwyba) que tem o mesmo significado de mendigo, pedinte, não saciado, carente, necessitado, referente à classe social mais baixa, essas pessoas não conseguem se tornarem independentes de outros devido suas necessidades não supridas. O outro termo é ruwsh (vwr) que significa aquele que se torna pobre por outrem, ser pobre, ter falta de, tem o sentido de pessoas empobrecidas por ações de injustiças.  Há, também, o termo dal (ld) traz o sentido de inferior, pobre, fraco, magro, pessoa inferior (cf. Amós 5.11). Tem o sentido de algo que está pendurado por um fio.  E por ultimo os termos ra‘eb (ber), faminto, de vigor combalido, aquele que não tem o que comer e chelaka (hklx), miserável, pobre, pessoa infeliz, desafortunado citado em Salmos 10.4.[4]
 A base bíblica veterotestamentária de nossa argumentação para que a pobreza, e os que sofrem com ela, seja um alvo a ser trabalhado pela igreja atual começa em Gênesis, onde Deus cria todas as coisas. Inicialmente toda obra criatória divina é considerada agradável, boa, amável (é o que se entende pelo adjetivo hebraico bom, “towb”, citado em Gênesis 1.31). A criação era perfeita e bela. Em meio à narrativa bíblica da criação, aparece à criação do ser humano, que é narrada com um grau de importância sublime, a formação dessa criatura se dá com um concilio divino, em Gênesis 1.26 é declarado: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança” (GRIFO NOSSO), e assim o fez do “pó da terra”. O nome dado ao homem, Adão, vem do hebraico “Adam” que tem a mesma raiz da palavra “Adamah”, que significa terra, analisando a criação do homem a partir da terra pode-se concluir que o homem e a terra são parte integrantes. No Congresso Brasileiro de Evangelização foi dito:
O homem e a terra não entidades separadas. Eles têm uma serie de importantes relacionamentos e interdepências (...). Quaisquer dificuldades ou problemas que houver com a terra se refletirá no homem. Explode-se a terra e teremos o fim da raça humana. Polui-se a terra e se prejudica a vida na face da terra [5].
Após a criação da terra e do ser humano, Deus entrega a terra às mãos do homem para administra-la e prover seu sustento. Até aqui o homem não sabia o que era poluição, queimadas, destruição, fome, desigualdade, discriminação, exclusão e injustiças e só passa conhecer esses problemas após ter cometido o pecado. O projeto inicial de Deus era formação de uma sociedade igualitária, mas, de acordo com entendimento formado a partir do velho testamento as desigualdades começa a existir após a queda do homem, Cavalcanti (1987) disse:
A tremenda verdade é que, se o homem não houvesse pecado, ele iria vivenciar  plenamente este projeto de Deus em suas relações sociais; projeto esse em que nada de negativo que vemos acontecer através da historia, até nossos dias, teria talvez: tanto em relação à expressão cultural de civilização, como relação à questão social e econômica [6].
 Diferentemente de Rousseau (1975) [7], que acreditava que as desigualdades entre os homens têm como base a noção de propriedade privada e a necessidade de um superar o outro, numa busca constante de poder e riquezas, para subjugar os seus semelhantes, para o cristianismo as desigualdades está correlacionada com o pecado do primeiro homem, Adão.
 O principal argumento veterotestamentário para o combate da pobreza é o fato de Deus ter criado o homem a sua imagem e semelhança. Essa imagem do divino mostra que esse ser está ligado ao Criador e é por essa ligação que o ser humano passa a ser “dignamente superior às outras criaturas” [8]. Esse pensamento antropológico-teológico foi bem desenvolvido por Tertuliano, que acreditava na objetividade da existência humana, que dizia que o ser humano foi modelado pelo próprio Deus, uma obra maravilhosa que recebera a liberdade. Segundo ele, Deus se dedicou totalmente a substância que depois de trabalhada com amor surge o homem[9]. Dentro dessa perspectiva, começamos a entender a dignidade humana que, em suma, não deve ser reduzida a nem um tipo de degradação, seja ela qual for, inclusive a pobreza.
Por outro lado existe também o argumento de que Deus criou a terra e a colocou a disposição do gênero humano, para que este a dominasse com trabalho e sobrevivesse dos seus frutos. No livro das Origens é relatado que todas as aves, peixes, animais terrestres deveriam ser dominados pelo homem e os frutos, sementes, ervas serviriam de mantimento[10]. A disposição do criador em entregar os frutos e animais para o homem leva-nos a afirmação que os bens criados devem ser destinados a todos, sem que haja exclusões em detrimento da vontade egocêntrica de uma minoria dominante. No Compêndio da Doutrina Social da Igreja, que cita o Vaticano II[11], encontramos o desenvolvimento dessa afirmativa, onde é declarado o sentido universal dos bens. Essa afirmativa não implica que tudo pertença a todos, mas que fique assegurado o exercício justo da distribuição dos bens para que todos usufruam e tenha as condições de uma vida sem indignidade.
No livro de Deuteronômio, especificamente no capitulo 15 e verso 11 fica patente que a existência de pobres era contínua dentro da sociedade hebreia, mas mesmo com essa afirmativa fica visível a vontade do Divino quando se é ordenado: “... para que entre ti não haja pobre...” (DEUTERONÔMIO 15.4 ARC). A vontade divina não pode ser entendida com uma promessa a ser cumprida por ele, mas uma ordenança a ser seguida pelo homem. O ser humano tem uma gama de possibilidades de realizar-se consigo e com os outros, portanto fica plausível que a diretiva divina é que aquele crie realidades para que não haja nem um tipo de exclusão. 
Existiam leis que protegiam e davam auxilio aos pobres, mas adiante, no item 3.2 trataremos especificando as figuras da exclusão na antiguidade (órfãos, estrangeiros, viúvas, etc.) e o que o antigo e novo testamento diz a respeito. Mas salientamos que nas relações sociais com o pobre eram vetados os maus tratos ou opressão (DEUTERONÔMIO 24.14), a usura (ÊXODO 22.25) e a injustiça (LEVÍTICO 19.15). Nos cultos religiosos, o pobre não podia ser excluído por não ter condições de ofertar sacrifícios, mas havia determinadas ofertas que se enquadrariam de acordo com as posses do ofertante, quanto menores fossem suas posses, menor seriam os animais sacrificados, ou ofertas entregues aos sacerdotes.
 A mais profunda ideia social ante a pobreza pode ser analisada a partir de Levítico 19.18, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Esse imperativo, expressa o mais alto ideal para a convivência do ser humano, é a ideia da responsabilidade pelo outro e isso não é uma opção, mas uma ordem que deve ser parte continua da vida do homem, enquanto gênero. A prática dessa ordem não deve ser visada com meio de obtenção de reconhecimentos, isso deve ser entendido como uma única maneira de viver.  Amar ao próximo como a si mesmo eis o desafio de Deus para com o Seu povo. A sociedade hebreia que estava em formação no deserto, deveria ser formada a partir desse principio, esse deveria ser o norteamento de toda relação social. As leis deveriam ser justas, o governo deveria ser administrado com equidade, às negociações deveriam ser praticas com ética e justiça. Tudo visando o bem estar do outro. Pensando dessa forma não poderia haver praticas trabalhistas escravagistas, abandono, subjugação pelo poder, etc.
Durante período deuteronômico surge um dos primeiros sistemas fiscais que se tem conhecimento, o dízimo. A decima parte de tudo que era produzido por todos eram destinado ao sustento dos sacerdotes, viúvas, órfãos e estrangeiros. De acordo com os textos de Deuteronômio 26.12,13 e 14.28,29 mostra que os dízimos arrecadados serviriam para auxiliar os pobres.
Os livros históricos do antigo testamento registram o inicio da nova terra prometida por Deus à Israel. No inicio entendemos que não havia desigualdade e pobreza, a terra conquistada havia sido distribuída de maneira igual entre as tribos, e estas redistribuíram de maneira igual entre as famílias. Porém com o tempo àqueles que foram escravos no Egito, passam a oprimir e escravizar seus irmãos na nova terra. O modelo patriarcal que trazia uma sociedade mais justa que vivia segundo os mandamentos do Deus de Israel, foi substituído pela monarquia. No livro do profeta Samuel fica registrado as consequências que esse novo tipo de sociedade traria a vida da nação, os filhos serviriam de servos para construir armas, guerrear e trabalhar nas lavouras, de tudo que fosse produzido o melhor seria direcionado para o rei e seus servos, os dízimos que serviam para os pobres passam a ser entregue aos oficiais da monarquia e as filhas serviriam ao rei como padeiras, perfumistas, cozinheiras. A monarquia fixada dava direito ao rei e seus oficiais a usufruírem dos bens produzidos pela nação explorando como se achasse conveniente. (1SAMUEL 8.10-20)
Os autores dos sapienciais bíblicos falam da questão da pobreza em vários trechos. O livro de Jó elenca o fato de Deus proteger e ouvir os pobres em detrimento dos feitos perversos dos ímpios. Podemos encontrar declarações como: “[os ímpios], assim, fizeram que o clamor do pobre subisse até Deus, e este ouviu o lamento dos aflitos” (JÓ 34.28) e “quanto menos àquele que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima ao rico mais do que ao pobre; porque todos são obras de suas mãos”. (JÓ 34.19). Ainda no mesmo livro existem denuncias de pobres sem socorro, desamparados e que tem seus direitos negados[12].


Jó.

Nos salmos 10 existe um clamor pelo auxilio ao pobre, o autor clama a Deus, pois, os ímpios perseguem o pobre e os necessitados são destruídos. Diante desse sofrimento o salmista clama: “Levanta-te, SENHOR! Ó Deus, ergue a mão! Não te esqueças dos pobres.” (SALMOS 10.12 ARA) e mais adiante, nos Salmos 12.5, Deus diz: “Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o SENHOR; e porei a salvo a quem por isso suspira”. Os salmos mostram Deus como àquele que não fica passivo ante ao clamor do pobre, podemos averiguar isso em uma rápida leitura nos trechos 132.15, 109.31 e 12.5.
Agora vejamos o que ensina os Provérbios do velho testamento. Os textos 14.31 e 17.5 ensinam que os que oprimem ao pobre insultam ao criador. Mais uma vez o antigo testamento lembra que o homem foi criado a partir de Deus, e este não permite que aquele sofra com as desigualdades impostas pelo poder de outro. O livro de Provérbios ensina, ainda, nos trechos 22.9 e 14.21, que aqueles que se compadecem do necessitado serão abençoados ao passo que os que não cuidam dos pobres serão amaldiçoados (PROVÉRBIOS 22.16 E 28.17). Há também uma alusão muito interessante aos pobres que vivem nessas condições por serem preguiçosos, a primeira parte do capitulo 6 e trechos do capitulo 23 e 28 desse livro  trata justamente disso. A passagem de implicação forte nesse livro é a que se segue: “Aquele que tapa os seus ouvidos ao clamor do pobre, também clamará, e não será ouvido.” (PROVÉRBIOS 21.13, TB)
 A pobreza, que de acordo com os preceitos deuteronômicos não poderiam fazer parte da sociedade hebreia, sociedade esta que serviria de modelo, é enfaticamente denunciada pelos profetas. Isaías revela que Deus começa a julgar os anciãos e seus lideres por causa total desprezo pelos pobres, ele ainda fala de homens que fraudavam os desvalidos e legisladores que criavam leis injustas que reprimiam o direito dos pobres[13]. Mostra, também, no trecho 5.8 homens que juntam propriedades e não deixam espaços para os pobres terem suas moradias. Esse profeta revela, ainda, que o Messias prometido traria um reinado de justiça, uma leitura nos trechos 11.4, 29.19 evidencia o que afirmamos. Por fim existe a promessa em Isaías 32.7 de serem agraciados todos aqueles que acolhessem os desamparados e mais adiante Deus revela claramente sua vontade no capítulo 58 onde lemos:
Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade desfaça as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (VERS. 6,7)
Ezequiel 18 é apresentado uma lista de características de um homem justo, dentre essas características é citado a ajuda ao pobre. As denuncias feitas pelo profeta mostra que Israel tornou-se tão perverso quanto à cidade de Sodoma. O pecado de Sodoma era não cuidarem dos pobres. Em Ezequiel 16.49 encontramos o seguinte:         
Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não fez Sodoma, tua irmã, ela e suas filhas, como tu fizeste, e também tuas filhas. Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.(ARA)  
As acusações continuam com o profeta Jeremias, “sangue de pobres e inocentes” (JEREMIAS 2.34) estavam nas vestes da nação, o desprezo pelas leis causavam degradação social, desvio moral, desvio religioso, indiferentismo. O libelo de Amós se de ao fato de cobrança indevida de tributos aos pobres, que tiravam do mantimento, “trigo”, para sustentar corruptos que com opulência extorquiam os pobres. (cf. AMÓS 5.11), o castigo estava próximo de Israel, pois eles continuamente exploravam o pobre (AMÓS 2.6). Amós continua com a acusação contra Israel mostrando homens que controlavam dolosamente            a distribuição de alimentos enganando o povo e se aproveitando das condições de pobreza de alguns, reduzindo a escravidão homens e mulheres, diz o texto:
                                     Quem dera que a Festa da Lua Nova já tivesse terminado para que pudéssemos voltar a vender os cereais! Como seria bom se o sábado já tivesse passado! Aí começaríamos a vender trigo de novo, cobrando preços bem altos, usando pesos e medidas falsos e vendendo trigo que não presta. Os pobres não terão dinheiro para pagar as suas dívidas, nem mesmo os que tomaram dinheiro emprestado para comprar um par de sandálias. Assim eles se venderão a nós e serão nossos escravos! (AMÓS 8.5-6, NTLH)
O capitulo três do livro do profeta Malaquias, usado comumente nos discursos religiosos, de evangélicos protestantes, hoje a respeito do dizimo, Deus se mostra mais uma vez julgando o povo de Israel. O motivo? Desvio de conduta moral e religiosa, opressão e falta de auxilio aos necessitados. O versículo 10 desse capítulo Deus ordena que os dízimos sejam entregues para que haja mantimento, alimentos, que eram empregados ao sustento não só de sacerdotes e levitas, mas para os necessitados como viúvas, órfãos e estrangeiros, pois era o que a lei determinava e pode ser conferido em Deuteronômio 14.28,29 e 26.12,13.
Reitero o que foi dito no inicio desse texto: A igreja precisa se preocupar com a essa questão, afinal Deus se preocupa, pelo menos, é o que fica subentendido pelas pesquisas dos trechos bíblicos estudados até aqui.


Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.
Mahatma Gandhi


- Oaidson B Silva



[1]  Movimento religioso surgido nos Estados Unidos da América, que interpreta alguns trechos da bíblia dizendo que aqueles que são fiéis a Deus devem desfrutar de uma excelente situação na área financeira,  da saúde,  emocional, social, familiar, etc. (FONTE:HTTP://PT.WIKIPEDIA.ORG/WIKI/TEOLOGIA_DA_PROSPERIDADE  ; ACESSADO EM 13/09/12).
[2] BARTH. Pobreza em Dadiva e Louvor. São Leopoldo: Sinodal, 1986, p.351.
[3] QUEIROZ, Carlos Pinheiro. Eles herdarão a terra. Curitiba: Encontro, 1998, p.19.
[4] HARRIS, R. Laind. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, Trad. Gordon Chown, Edições Vida Nova, 1985. (todos os termos para o vocábulo “pobre”).
[5] YUASSA, Key. “O Homem Brasileiro como Objeto do Amor de Deus”, em a Evangelização do Brasil: Uma tarefa inacabada, onde estão contidas as palestras proferidas por vários autores no Congresso Brasileiro de Evangelização em Belo Horizonte – MG – 1983, São Paulo: Ed. ABU. , 1985, pp. 84 e 86.
[6] CAVALCANTI, Robinson. Igreja: Agencia de Transformação Histórica. VINDE e SEPAI, 1987, p12.
[7] Jean Jaques Rousseau em seu celebre discurso sobre A origem da desigualdade entre os homens e se ela é autorizada pela lei natural em 1753, como reposta a questão proposta pela academia de Dijon, disponível em www.livros_gratis/origem_desigualdades.html.
[8] COBERLLINI, Vital. Referências Patrísticas quanto aos Princípios da Doutrina Social da Igreja. Artigo publicado pela PUC
[9] TERTULLIANO. La Resurrezione dei morti, VII, 3-4. Traduzione, Introduzione e Note a cura, C.MICAELLI, Roma: Città Nuova Editrice, 1990.

[10] Gênesis 1.28,29
[11] Alusão aos documentos provenientes do Concilio Vaticano II, ocorrido de 1962 a 1965.
[12] Cf. Jó 20.19; 24.4; 24.9; 31.16.
[13] Cf. Isaías 3.10,11. 15; 10.1, 2; 32.7