Aos teólogos,
Tive o prazer de ministrar para uma turma de
formandos em Teologia nesse último fim de semana. Minhas palavras formam o que
julgo uma pequena parte do desafio para os teólogos de hoje.
Quero compartilhar com você. Espero que você também
se sinta desafiado.
DESAFIOS
UMA FÉ COMPROMETIDA COM
A REALIDADE.
SOBRIEDADE EM TEMPOS DE DEVANEIOS.
FIRMEZA EM TEMPOS DE
FLUIDEZ.
VOCAÇÃO EM TEMPOS DE
ATIVISMO RELIGIO-MINISTERIAL.
DESAFIO DE VIVER O QUE ENSINA
E ENSINAR O QUE SE VIVE.
UMA
FÉ COMPROMETIDA COM A REALIDADE
Não raro somos tentados
a viver uma fé sem compromisso com a ética cristã, e sem compromisso com a
realidade.
Em tempos de grandes
palácios erigidos em nome da fé, em tempos de descompromisso com a realidade do
nosso tempo, tempos em que a religiosidade é um meio de escape, eu ouso em CONCLAMA-LOS,
olhem para o mundo, não com o desprezo costumaz de um enclausurado, mas olhem
com o olhar de João 3.16.
Tenha uma fé que não
fique somente no transcendente, que seja imanente, uma fé que abrace as ruas,
uma fé que abrace a realidade do ser humano DE HOJE, logicamente sem abrir mão
do que lhe é mais precioso, A REVELAÇÃO DA DIVINDADE EM CRISTO E SUA PALAVRA.
Como bem falou Tiago: “Assim também a fé, se não tiver obras, é
morta em si mesma” (TG 2.17), sigamos com uma
fé viva. Ouçamos o apostolo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua,
mas por obra e em verdade”.
Lembro-me das
palavras de Freire:
“O radical,
comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em ‘círculos de
segurança’, nos quais aprisione também a realidade.”
Tenham a coragem de
abrir mão da vida guiada pela religião aparente. Abrir mão do pensamento preso a
Teologia de sua comunidade de fé. Por mais que seja o mais fácil, mais
‘seguro’, tenha a coragem e ousadia de peitar a realidade de frente e
questionar como nossa fé pode mudá-la.
Não carregue
simplesmente a Teologia de uma denominação, de uma igreja, mas uma teologia que
seja dialogal, que converse com o mundo, com as pessoas, com as ciências, com o
profissional, com a ética, com a vida, com a politica, com a sociedade. Contudo
não abra mão da fé, da palavra e do Deus encarnado do novo testamento.
SOBRIEDADE
EM TEMPOS EM TEMPOS DE DESVANEIOS
Em tempos de religião
como moda, em tempos de triunfalismo, de muita falação, grandes eventos, da fé
como show business, de teologias formatadas, de teologias intocáveis e
distorcidas, de discursos que subjugam o divino, discursos que vão contra a
revelação escrita e a própria historia da fé cristã. Eu conclamo os teólogos de
hoje à sobriedade:
Sede sóbrios, (eknephos,
voltar a ter uma mente sóbria, ou sophron mente sã).
Lembro do conselho de
Pedro:
“Portanto, cingindo os lombos do vosso
entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos oferece
na revelação de Jesus Cristo.” (1 PEDRO 1.13)
O desafio é ter:
Sobriedade ante os
vícios da religião.
Sobriedade ante a
ilusão do poder.
Sobriedade ante ao
delírio da riqueza.
Sobriedade ante a
embriaguez dos elogios e do reconhecimento puramente humano.
Sejam sóbrios em tempos de desvaneios. Tenham o
mesmo espirito dos profetas de Israel, quando clamavam ante a 'loucura' do povo
que se afastavam do Deus verdadeiro.
FIRMEZA
EM TEMPOS DE LIQUIDEZ E FLUIDEZ
Bauman, sociólogo, parece ter acertado em cheio a definição da pós-modernidade. Estamos nos tempos
líquidos, relações liquidas, nada precisa ser rígido ou tão sólido, mas fluído
e em permanente inconstância.
Zygman
Bauman escolhe o “líquido” como metáfora para ilustrar o estado dessas
mudanças, facilmente adaptáveis e fáceis de serem moldadas. As formas de vida
moderna, segundo ele, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes
de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça esse estado
temporário das relações sociais.
A transitoriedade é a
marca do nosso tempo, tudo é móvel, não fixo. Mas quero lembrar-lhes que o
teólogo tem a dura tarefa de não amoldar-se, não seguir o mesmo fluxo. O
teólogo segue um padrão absoluto, insolúvel, rijo, firme.
Quero lembrar-lhes que a Rocha viva é inabalável,
que o Deus trino não muda (MALAQUIAS 3.6), e seus padrões também não. Sua
palavra não muda e não mudará (MATEUS 24.35). O conceito bíblico de pecado não
é transitório. O amor de Deus também não é passageiro. Os planos do altíssimo
não foram mudados.
O PADRÃO NÃO É RELATIVO, A VIDA CRISTÃ TAMBÉM NÃO.
O conselho de Paulo é “Portanto, meus amados irmãos,
permanecei firmes e que absolutamente nada vos abale.” (1 CO 15.58)
“A ausência de firmeza explica o abandono da
fé, o abandono da esperança, o abandono do entusiasmo e o abandono do
compromisso evangélico da parte de não poucos cristãos, depois de um razoável
período de fidelidade a Cristo. É como cantamos: “Quantos que corriam bem/ De
ti longe agora vão!/ Outros seguem, mas também/ Sem calor vivendo estão”. Sem
firmeza a fé não consegue desafiar o tempo. O tempo é a maior prova da
autenticidade e da firmeza da fé. Jesus menciona este fato na parábola do
semeador. O que aceita a Palavra com alegria mas não se preocupa com o
crescimento da raiz terá fé de pequena duração: “Quando surge alguma tribulação
ou perseguição por causa da Palavra, logo a abandona” (Mt 13.21).”[1]
VOCAÇÃO
EM TEMPOS DE ATIVISMO RELIGIO-MINISTERIAL
Paulo,
enquanto estava preso em Roma, faz uma das mais lindas convocações:
Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor,
que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados
Não troque
sua vocação pelo ativismo religioso, ou pelo desejo de poder interno, ou pelo
desejo de cargos e mais cargos.
Antes faça, com
que sua vocação seja priorizada. Afinal vocês se encaixam no que Paulo diz em Efésios
4.12, vocês são mestres, pastores, doutores, pessoas vocacionadas para edificação
da igreja. Por isso esse desejo de fazer um curso que não te recompensará
financeiramente apenas.
Estejam
preocupados com a vida devocional de vocês.
DESAFIO
DE VIVER O QUE SE ENSINA E ENSINAR O QUE SE VIVE
Ter coerência entre o
dito e o feito.
“Há três caminhos para
o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não
perguntar o que se ignora.” (São Beda)
Tiago disse:
E sede cumpridores da
palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. (TIAGO 2.17)
Pedro asseverou:
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos (1 PEDRO 2.15)
Por ultimo concluo com
a oração de Tomas de Aquino, que intercedeu
assim pelos Teólogos:
Deus santíssimo, Deus Pai,
nós, teu povo e teus herdeiros,
te pedimos pelos teólogos.
Tu que te revelaste a nós pela Palavra de vida,
não permitas que não entendamos as palavras
dos teólogos na nossa vida.
Tu que te revelaste a nós pela encarnação de Jesus,
não permitas que eles falem de uma teologia
que não seja encarnada e sempre reveladora.
Deus santíssimo, Deus Pai,
Tu que és eterna luz e única verdade,
ilumina e esclarece o espírito dos teólogos,
que seus estudos sejam fruto do Espírito Santo,
de oração e de humildade,
fonte de esclarecimento para teu povo.
Que Tu não sejas para ninguém, sobre esta terra,
apenas um objeto de estudo, mas
a rocha segura sobre a qual podemos construir nossa casa.
Deus abençoe a jornada de
vocês, e se me permitem mais um conselho: produzam uma teologia relevante!
Soli Deo gloria!!!!!
Oaidson
Bezerra e Silva
29 de Maio de
2017

Nenhum comentário:
Postar um comentário