segunda-feira, 29 de maio de 2017

Aos Teólogos,





Aos teólogos,

Tive o prazer de ministrar para uma turma de formandos em Teologia nesse último fim de semana. Minhas palavras formam o que julgo uma pequena parte do desafio para os teólogos de hoje.
Quero compartilhar com você. Espero que você também se sinta desafiado.

DESAFIOS

UMA FÉ COMPROMETIDA COM A REALIDADE.
SOBRIEDADE EM  TEMPOS DE DEVANEIOS.
FIRMEZA EM TEMPOS DE FLUIDEZ.
VOCAÇÃO EM TEMPOS DE ATIVISMO RELIGIO-MINISTERIAL.
DESAFIO DE VIVER O QUE ENSINA E ENSINAR O QUE SE VIVE.


      UMA FÉ COMPROMETIDA COM A REALIDADE

Não raro somos tentados a viver uma fé sem compromisso com a ética cristã, e sem compromisso com a realidade.
Em tempos de grandes palácios erigidos em nome da fé, em tempos de descompromisso com a realidade do nosso tempo, tempos em que a religiosidade é um meio de escape, eu ouso em CONCLAMA-LOS, olhem para o mundo, não com o desprezo costumaz de um enclausurado, mas olhem com o olhar de João 3.16.
Tenha uma fé que não fique somente no transcendente, que seja imanente, uma fé que abrace as ruas, uma fé que abrace a realidade do ser humano DE HOJE, logicamente sem abrir mão do que lhe é mais precioso, A REVELAÇÃO DA DIVINDADE EM CRISTO E SUA PALAVRA.
Como bem falou Tiago: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (TG 2.17), sigamos com uma fé viva. Ouçamos o apostolo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”.
Lembro-me das palavras de Freire:
“O radical, comprometido com a libertação dos homens, não se deixa prender em ‘círculos de segurança’, nos quais aprisione também a realidade.”
Tenham a coragem de abrir mão da vida guiada pela religião aparente. Abrir mão do pensamento preso a Teologia de sua comunidade de fé. Por mais que seja o mais fácil, mais ‘seguro’, tenha a coragem e ousadia de peitar a realidade de frente e questionar como nossa fé pode mudá-la.

Não carregue simplesmente a Teologia de uma denominação, de uma igreja, mas uma teologia que seja dialogal, que converse com o mundo, com as pessoas, com as ciências, com o profissional, com a ética, com a vida, com a politica, com a sociedade. Contudo não abra mão da fé, da palavra e do Deus encarnado do novo testamento.


SOBRIEDADE EM TEMPOS EM TEMPOS DE DESVANEIOS

Em tempos de religião como moda, em tempos de triunfalismo, de muita falação, grandes eventos, da fé como show business, de teologias formatadas, de teologias intocáveis e distorcidas, de discursos que subjugam o divino, discursos que vão contra a revelação escrita e a própria historia da fé cristã. Eu conclamo os teólogos de hoje à sobriedade:

Sede sóbrios, (eknephos, voltar a ter uma mente sóbria, ou sophron mente sã).
Lembro do conselho de Pedro:
Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo.” (1 PEDRO 1.13)
O desafio é ter:
Sobriedade ante os vícios da religião.
Sobriedade ante a ilusão do poder.
Sobriedade ante ao delírio da riqueza.
Sobriedade ante a embriaguez dos elogios e do reconhecimento puramente humano.
Sejam sóbrios em tempos de desvaneios. Tenham o mesmo espirito dos profetas de Israel, quando clamavam ante a 'loucura' do povo que se afastavam do Deus verdadeiro.


 FIRMEZA EM TEMPOS DE LIQUIDEZ E FLUIDEZ

Bauman, sociólogo, parece ter acertado em cheio a definição da pós-modernidade. Estamos nos tempos líquidos, relações liquidas, nada precisa ser rígido ou tão sólido, mas fluído e em permanente inconstância.
Zygman Bauman escolhe o “líquido” como metáfora para ilustrar o estado dessas mudanças, facilmente adaptáveis e fáceis de serem moldadas. As formas de vida moderna, segundo ele, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça esse estado temporário das relações sociais.
A transitoriedade é a marca do nosso tempo, tudo é móvel, não fixo. Mas quero lembrar-lhes que o teólogo tem a dura tarefa de não amoldar-se, não seguir o mesmo fluxo. O teólogo segue um padrão absoluto, insolúvel, rijo, firme.
Quero lembrar-lhes que a Rocha viva é inabalável, que o Deus trino não muda (MALAQUIAS 3.6), e seus padrões também não. Sua palavra não muda e não mudará (MATEUS 24.35). O conceito bíblico de pecado não é transitório. O amor de Deus também não é passageiro. Os planos do altíssimo não foram mudados.
O PADRÃO NÃO É RELATIVO, A VIDA CRISTÃ TAMBÉM NÃO.
O conselho de Paulo é “Portanto, meus amados irmãos, permanecei firmes e que absolutamente nada vos abale.” (1 CO 15.58)

“A ausência de firmeza explica o abandono da fé, o abandono da esperança, o abandono do entusiasmo e o abandono do compromisso evangélico da parte de não poucos cristãos, depois de um razoável período de fidelidade a Cristo. É como cantamos: “Quantos que corriam bem/ De ti longe agora vão!/ Outros seguem, mas também/ Sem calor vivendo estão”. Sem firmeza a fé não consegue desafiar o tempo. O tempo é a maior prova da autenticidade e da firmeza da fé. Jesus menciona este fato na parábola do semeador. O que aceita a Palavra com alegria mas não se preocupa com o crescimento da raiz terá fé de pequena duração: “Quando surge alguma tribulação ou perseguição por causa da Palavra, logo a abandona” (Mt 13.21).”[1]


   VOCAÇÃO EM TEMPOS DE ATIVISMO RELIGIO-MINISTERIAL


Paulo, enquanto estava preso em Roma, faz uma das mais lindas convocações:
  Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados
Não troque sua vocação pelo ativismo religioso, ou pelo desejo de poder interno, ou pelo desejo de cargos e mais cargos.
Antes faça, com que sua vocação seja priorizada. Afinal vocês se encaixam no que Paulo diz em Efésios 4.12, vocês são mestres, pastores, doutores, pessoas vocacionadas para edificação da igreja. Por isso esse desejo de fazer um curso que não te recompensará financeiramente apenas.
Estejam preocupados com a vida devocional de vocês.


DESAFIO DE VIVER O QUE SE ENSINA E  ENSINAR O QUE SE VIVE


Ter coerência entre o dito e o feito.
“Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não perguntar o que se ignora.” (São Beda)

Tiago disse:
E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. (TIAGO 2.17)

Pedro asseverou:
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos (1 PEDRO 2.15)

Por ultimo concluo com a oração de Tomas de Aquino, que intercedeu  assim pelos Teólogos:

Deus santíssimo, Deus Pai,
nós, teu povo e teus herdeiros,
te pedimos pelos teólogos.
Tu que te revelaste a nós pela Palavra de vida,
não permitas que não entendamos as palavras
dos teólogos na nossa vida.
Tu que te revelaste a nós pela encarnação de Jesus,
não permitas que eles falem de uma teologia
que não seja encarnada e sempre reveladora.
Deus santíssimo, Deus Pai,
Tu que és eterna luz e única verdade,
ilumina e esclarece o espírito dos teólogos,
que seus estudos sejam fruto do Espírito Santo,
de oração e de humildade,
fonte de esclarecimento para teu povo.
Que Tu não sejas para ninguém, sobre esta terra,
apenas um objeto de estudo, mas
a rocha segura sobre a qual podemos construir nossa casa.

Deus abençoe a jornada de vocês, e se me permitem mais um conselho: produzam uma teologia relevante!

Soli Deo gloria!!!!!

Oaidson Bezerra e Silva
29 de Maio de 2017

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