segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Órfãos e a igreja!

ÓRFÃOS, E A IGREJA!


             

              Já parou pra pensar quantos órfãos existem no mundo?
           De acordo com dados do Fundo da ONU para a Infância (Unicef), 3,7 milhões de crianças brasileiras são órfãs de pai ou de mãe. O Brasil está na nona posição entre os países em desenvolvimento com o maior número de órfãos no mundo. Estima-se que existam mais de 16 milhões de órfãos no mundo que perderam seus pais para Aids, e isso, segundo a ONU, representa metade dos órfãos existentes no mundo.
             Você consegue imaginar a dor de um órfão? Muitos deles abandonados pelos pais ou retirados de suas famílias devida as condições sociais que vivem ou mal tratos sofridos por parte daqueles que lhe deveriam  dar amor e suporte no inicio de suas vidas. Eles vivem em verdadeiras prisões, pelo menos é assim que entendo os orfanatos no Brasil, sem voz, personagens que não vistos ou lembrados por muitos.

             A proposta desse pequeno estudo é mostrar que Deus se importa com aqueles que sofrem por viver nessa condição social. E por se importar, direcionou seu povo e, posteriormente, sua igreja para não agir passivamente diante dessa realidade, muitas vezes cruel e desumana. 

             A legislação veterotestamentária dava direcionamento quanto ao auxilio aos órfãos.
            Não sofrer qualquer espécie de tortura, fosse ela física ou moral, era o direito básico do órfão segundo a Tora, o texto de Êxodo 22.22 mostra que o órfão não deveria ser “afligido” [1], era exigido do cidadão hebreu dar alimento e roupa, e isso era uma maneira de “fazer justiça” [2].
            Do dizimo arrecado pela nação, os órfãos, junto às viúvas, estrangeiros e levitas, a cada três anos poderiam participar. Eles poderiam participar das festas de Israel sem constrangimentos.
            A lei da sega ou das colheitas encontrada no livro de Levítico (19.9-10; 23.22) e Deuteronômio (23.24-25; 24.19-22) davam amparo aos que viviam nessas condições, uma parte do que era colhido ou deixado de colher deveria ser dado livremente aos pobres, entre eles os órfãos detinham esse direito.
            E o mais importante, Deus deu a ordem, ninguém poderia perverter, transgredir ou omitir o direito dos órfãos sob a pena de maldição divina (cf. Deuteronômio 24.17; 27.19).
            Nos Salmos Deus é chamado de auxilio e protetor dos órfãos (cf. Salmos 10.14; 68.5; 146.9). Ainda nos Salmos o povo é conclamado a “fazer justiça” ajudando aos órfãos (cf. Salmos 10.18; 82.3). No livro sapiencial dos Provérbios, onde é exaltada a sabedoria, pede-se respeito à herança dos órfãos (Provérbios 23.10).
            Os profetas do antigo testamento, por varias vezes, denunciam abusos e exclusões que eles sofriam e em alguns casos o povo hebreu ouvia as denuncias e profecias ligadas a esse trato social. Isaías, por exemplo, afirma que Deus já não se agradava das ofertas, sacrifícios realizados pelos religiosos hebreus e asseverava que eles precisavam aprender a “fazer o que é bom, tratar os outros com justiça; socorrer os que são explorados, defender os direitos dos órfãos e proteger as viúvas.” (Isaías 1.17 NTLH, grifo nosso).
           A denuncia do profeta Isaías continua com os lideres de sua época, que por ganância esqueciam-se dos carentes (cf. Isaías 1.23; 10.2). Os profetas Jeremias e Ezequiel também fazem a mesma denuncia (cf. Jeremias 5.28; Ezequiel 22.6-7) e mostra que algumas promessas feitas pelo grande Deus de Israel estavam condicionadas ao tratamento que os hebreus iriam dar aos órfãos (cf. Jeremias 7.6; 22.3). Já Oséias lembra que a misericórdia ao órfão vem de Deus (Oséias 14.3).
            Em uma época de crises, de formação e de desenvolvimento de uma nação, vemos o cuidado de Deus para com os órfãos
            Você pode estar perguntando: E o novo testamento?
             Os órfãos na antiguidade faziam, e ainda fazem, parte da classe social chamada de pobres. Há alguns meses, comentamos sobre os pobres e o novo testamento. Você pode ver no link: (http://geracaojovemphb.blogspot.com.br/2015/12/a-pobreza-e-biblia-novo-testamento.html).
           O novo testamento aplica alguns princípios: Todos são iguais (Gálatas 3.28), o amor deve ser direcionado ao próximo ( Mateus 22.39), e que o próximo são todos aqueles que eu posso fazer o bem (Lucas 10.29-37). 
           Especificamente sobre os órfãos é impressionante é o que Tiago afirma: 
  A  religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guarda-se isento da corrupção do mundo  (Tiago 1.27  grifo nosso)
     A igreja tem uma obrigação, e nós não podemos fugir dela. Ser fiel a palavra à palavra é nossa obrigação, e isso inclui visitar os órfãos. A palavra traduzida como visitar (grego episkeptomai) significa literalmente cuidar, preocupar, examinar a fim de saber como estar, ser responsável.  
    O nosso convite é pra você, que faz parte da igreja! Lembre-se daqueles que vivem sob a égide das injustiças sociais, você pode orar por essas pessoas, mas não somente isso, tenha atitude! Faça algo! Visite! 
   Ou, quem sabe, você pode, futuramente, pensar em adotar uma criança, e assim ser usado por Deus para ajudar uma vida.

 
Oaidson Bezerra e Silva



   

  
             




[1] O vocábulo hebraico para “afligir” (hne ‘anah), de acordo com STRONG  tem o sentido de: oprimido, humilhado, rebaixado, maltratado. (LÉXICO HEBRAICO, ARAMAICO E GREGO DE STRONG; 2002, Sociedade Bíblica do Brasil, 2ª Ed.)
[2] Deuteronômio 10.18

Pensamento Social dos Reformadores


O PENSAMENTO SOCIAL DOS REFORMADORES  


Oaidson Bezerra e Silva

         
Em comemoração aos 499 anos da reforma protestante, esse post trata sobre um dos aspectos revolucionários oriundos da reforma. Olhando para esse movimento e sua profunda influencia no mundo ocidental, não podemos deixar de agradecer a todos aqueles que entregaram suas vidas até as ultimas consequências por aquilo que acreditavam: o retorno e a submissão da igreja ao senhorio de Cristo e Sua palavra.
A reforma tem suas raízes muito antes de 1517, porém foi nessa data que Martinho Lutero afixa suas 95 teses na abadia de Westminster, dando inicio ao que conhecemos como reforma protestante. Não iremos abordar a reforma em si, mas um dos resultados práticos quando nos voltamos para as sagradas escrituras.

 Lutero fixa e suas 95 teses na abadia de Westmister

No século XV e XVI, durante o movimento que ficou conhecido como Reforma, Calvino e Lutero, nomes centrais desse movimento e considerado, por muitos, pais das igrejas protestantes atuais, escreveram sobre a questão da pobreza e o compromisso da igreja cristã ante essa problemática.
 Lutero foi o responsável pela tradução da bíblia, que antes escrita em latim, para a língua alemã, com isso influenciou a língua e literatura germânica que surgiria mais tarde. A época em que viveu foi marcada por mudanças nos setores de produção e cultivo do material de subsistência. Novos mercados surgiram, havia fabricas que produziam em escalas maiores. A exploração de minério e vidro também estava em alta. Com esse tipo de produção houve um grande acumulo de capital, que voltava para a produção, posto de empregos e assalariamento surgem, era uma espécie de pré-capitalismo. Rietch (1995) observa:
A concentração econômica nas mãos de poderosas casas comerciais – Fugger, Welser e Höchstetter estavam entre as mais destacadas – deveu-se em muito à participação direta de algumas delas no financiamento da invasão e conquista do Novo Mundo, bem como aos enormes lucros advindos do daí decorrente comércio com as colônias[1].
Martinho Lutero foi um homem que sentiu dolorosamente as contradições sociais existentes. As famosas noventa e cinco teses, afixadas na abadia de Westminster (1517), revelam, em alguns trechos, o pensamento de Lutero da responsabilidade do cristão com o próximo. A tese quadragésima terceira e quarta dizem:
                                     Deve-se ensinar aos cristãos, procede melhor quem dá aos pobres ou empresta ao necessitado do que os que compram indulgência. É que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.
Para esse reformador, todo cristão é um sacerdote, livre para viver uma vida de serviço de amor a Deus e ao próximo. A mudança social começa com a liberdade baseada na justificação alcançada pela graça, e isso mediante a fé, que resulta num compromisso real não somente com Deus, mas com a sociedade. Lutero registra, que o cristão que enxerga seu próximo padecer necessidade e gasta seu dinheiro com indulgencias atrai a ira de Deus[2].
Max Weber (1864-1920) em seu livro “A ética protestante e o Espirito do Capitalismo” explica a concepção de Lutero sobre vocação, onde todos os homens (gênero) recebe uma tarefa outorgada por Deus, que cria algo que é indiscutivelmente novo:
a valorização do cumprimento do dever nos afazeres seculares como a mais alta forma que a atividade ética do indivíduo pudesse assumir segundo e isso foi um dos principais.[3]
Ainda de acordo com Weber o pensamento dos reformadores era que a vida do cristão aceitável a Deus, não era uma vida enclausurada num ascetismo exacerbado buscando uma moralidade distante do mundo, mas uma vida onde suas obrigações consigo mesmo e com os outros fossem cabalmente cumpridas, isso era sua vocação[4].         
A educação foi outro grande instrumento de mudança social aplicado por Lutero, ele acreditava que a educação seria o melhor e o mais eficaz agente de mudança social. As noventa e cinco teses publicadas por ele, circulou em quase todas as casas da Alemanha e levou a cada grupo e família a ler e debater cada tese, levando a uma ação de educação revolucionaria para época[5]. Nesse sentido Lutero não foi somente um reformador religioso, mas um reformador religioso e social.         
Do outro lado da reforma, mas não menos importante, temos João Calvino (1509-1564). Nascido em Noyon, Genebra, foi um dos grandes nomes da Reforma. O pensamento de Calvino influenciou e continua influenciando grande parte dos cristãos protestantes de hoje. Foi, ainda, um grande transformador da realidade social de Genebra, Suíça, sua cidade natal. 

João Calvino

 A cidade de Genebra, assim como outros lugares da Europa do século XVI, enfrentava um período de instabilidade. O papa e as autoridades eclesiásticas enfrentavam um grande descontentamento por parte do povo. A venda de indulgências causou revolta. A pobreza contrastava com a riqueza do clero.  
Calvino, após sua conversão, foi convidado por Farel, um dos precursores da reforma na Suíça, a ajudar nos problemas sociais que existiam naquela cidade. De acordo com Biéler (1961) Calvino foi intimado e logo começou a trabalhar no sentido trazer mudanças aquela cidade:
 Farel intimou Calvino a vir para a Suíça, dizendo que Deus iria amaldiçoá-lo se recusasse. Chegando a Genebra, vendo a miséria e a corrupção de costumes aí reinantes, organizou um consistório composto por pastores e leigos que tinha autoridade para controlar a conduta dos cidadãos: o consistório determinava o vestuário, o comportamento; proibia a bebida, o jogo e a dança. Havia uma disciplina bastante severa com o objetivo de moralizar os costumes. Foram estabelecidas rijas regras de comportamento, era proibida a vadiagem e o comerciante ficava impedido de roubar no peso, ou cobrar além do preço justo.[6].
Incentivou o trabalho, o valor da fraternidade, a ajuda aos necessitados, o descanso semanal, e vários outros. Devido sua atuação Genebra se tornou exemplo para os cristãos. Em pouco tempo a pobreza ali foi reduzida drasticamente.  O ensino foi outro ponto forte de total apoio e incentivo por Calvino, ele acreditava que todos poderiam entender melhor a bíblia se possuíssem ensino elementar, por isso fundou a Academia de Genebra, local onde pastores iriam ministrar educação aos fiéis.
A justiça social, a abolição de classes, a igualdade faziam parte das preocupações de Calvino. A organização eclesiástica de Calvino demostrava, também, seu apelo social. A igreja era dividida em pastores, doutores, presbíteros e diáconos. Os pastores ficariam conectados as questões doutrinais da igreja, os doutores a educação, os presbíteros à disciplina e os diáconos as questões sociais. O serviço diaconal, no pensamento de Calvino, volta a ser como nas paginas neotestamentárias onde o serviço de distribuir as ofertas dos mais ricos aos pobres necessitados é colocado em pratica.             
Os bens deveriam servir a todos. Quem muito possuísse deveria, por obrigação, socorrer e dar amparo aos pobres. Cabia à igreja dar suporte necessário aos pobres, órfãos, viúvas, doentes e todos necessitados, pois:
A cada passo se pode encontrar, tanto nos decretos dos sínodos, quanto nos escritores antigos, que tudo quanto a Igreja possui, seja em propriedade, seja em dinheiro, é patrimônio dos pobres[7]”. 
           
E se fosse necessário, de acordo com Calvino, os bens da igreja e até as vestes sacerdotais deveriam ser vendidas para sustento dos pobres. As transformações decorrentes da Reforma, através de Calvino e Lutero foram muito mais profundas do que relatamos acima, e pode ser tema de estudos específicos com uma gama de material histórico para tal.

Soli Deo Gloria!






[1] Rieth, Ricardo. Economia Introdução ao Assunto in: KAYSER, Ilson. Martinho Lutero Obras Selecionadas., Rio Grande do Sul, Sinodal e Concórdia Editora Ltda, 1995, pg. 367.
[2] 45ª Tese.
[3] WEBER, Max, 1864-1920, A ética protestante e o espirito do capitalismo, 2ª ed. rev., São Paulo, SP, Pioneira Thomson Learning, 2005, pg.34.
[4] Ibid. pg. 34 e 35.
[5] KEIM, Ernesto Jacob, A educação e a revolução social de Martinho Lutero, Eccos Revista Científica, vol. 12, núm. 1, São Paulo, SP, 2010, pg. 223.
[6] BIÉLER, André. O humanismo social de Calvino. São Paulo: Edições Oikoumene, 1961, pg 99.
[7] Institutas de Calvino, livro IV cap. IV item 6.